Uma peça sobre Camões? Não propriamente. Uma peça sobre o papel do artista na sociedade. Que farei com este livro?, de José Saramago, é, como o próprio autor indica, uma "visão não comemorativa" do autor de Os Lusíadas. A nossa proposta é a de tornar extensiva a reflexão sobre a obra e a vida do poeta, à própria vida da arte e do contexto em que ela se forma.Camões, nesta encenação, não é uma biografia, mas uma pergunta. Não é o vate localizado numa época, mas uma época (todas as épocas) localizadas no mundo da criação. A inquisição visível e a inquisição invisível são os protagonistas negativos deste espectáculo: a sua música de fundo permanente. O poema que primeiro desponta, depois se vai elaborando, se ergue, inteiro, se perfila na linha primeira do combate pela independência e, finalmente, se liberta do seu criador - este o próprio percurso de um espectáculo que a mais não aspira que a estabelecer a ponte, feita de contrastes e assimilações, entre duas margens históricas. Mas o leito que essa ponte atravessa é preenchido, como é habitual e cada vez mais obsessivamente, por uma única questão, o problema de sempre - o da liberdade. Que significa aqui, neste espectáculo é, claramente, isto: liberdade para se poder comer e viver, e liberdade de se poder criar. Poesia, em suma: o gosto do pão e o pão do gosto.
Ficha Artística e Técnica Co-produção: CTA - Companhia de Teatro de Almada ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve Teatro Nacional D. Maria II Teatro das Figuras
Personagens/ Intérpretes(por ordem de entrada em cena) Padre Luis Gonçalves da Câmara - André Gomes Martim Gonçalves da Câmara - Miguel Martins D. Catarina de Áustria - Teresa Gafeira Cardeal D. Henrique - Alberto Quaresma Fidalgo - Bruno Martins Miguel Dias, Frade, Mestre António Gonçalves - Luís Ramos Diogo do Couto - Luis Vicente Ana de Sá - Maria Frade Luis de Camões - Paulo Matos Condessa da Vidigueira - Catarina Ascensão Conde da Vidigueira - Nuno Góis Padre Bartolomeu Ferreira - José Martins D. Francisca de Aragão - Maria José Parchoal D. Sebastião, Servente - Pedro Walter Damião de Góis - Carlos Santos
Direcção Técnica: Carlos Galvão Direcção de Cena: José Martins, Miguel Martins Direcção de Palco: Marco Jardim Desenho de Som: Guilherme Frazão Montagem: António Cipriano, Sérgio Morato, Paulo Horta Confecção do Guarda-Roupa: Alfaiataria Delfim, Manuela Vaz, Maria João Santos, Piedade Antunes Mudanças de Cena e Figuração: Carlos Gomes, Carlos Ramos, Daniel Fialho, João Paixão, João Szasz, Marco Trindade Operação de Luz: Guilherme Frazão Vídeo: Cristina Antunes Fotos: Rodrigo Peixoto Penteados: Miguel Moleno Apoio Vocal: Natália de Matos Assistência de Encenação: Rodrigo Francisco Luz: José C. Nascimento Figurinos: Sónia Benite Cenários: Manuel Graça Dias, Egas José Vieira Encenação: Joaquim Benite
Da Imprensa:
"Mesmo sem a presença de José Saramago - ausente, ainda a convalescer em Lanzarote, o público aplaudiu muito a estreia da peça do Nobel português, Que Farei com Este Livro? No palco do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), na sexta-feira, dia 7 de Março, obrigando os actores a voltar à cena por três vezes para agradecer.
(...) o espectáculo acompanha-se com prazer, muito também por causa dos intérpretes: Paulo Matos, Luís Vicente, Teresa Gafeira e, sobretudo, a refrescante Maria José Pascoal." Correio da Manhã On Line, Ana Maria Ribeiro, 11/03/2008
"Na peça, a teatralização de individualidades da história literária, oscila entre narrativa biográfica, mais ou menos fiel, mais ou menos fantasiada, e um subtexto que surge como uma reflexão sobre a luta do artista com o meio social.Saramago evita com talento as dificuldades inerentes a esta opção, recusando a facilidade da reprodução histórica de per si, não facilitando contudo no rigor, e agarra o espectador quando a invenção poética se rebela face a uma vertente mais pedagógica do seu trabalho.
(...) Daí a força extraordinária que a peça adquire, ao respeitar a situação histórica e simultaneamente ultrapassá-la constituindo um manifesto contra a situação dos criadores, em sociedades em que a produção cultural é mal amada." Observatório do Algarve, 23/02/2008
"Não é exactamente uma peça sobre Camões. E também não é exactamente um espectáculo sobre Camões. O texto de José Saramago belisca onde mais faz doer e encontra na figura de Luís Vaz de Camões a medida exacta para questionar os males e as virtudes de um Portugal tantas vezes desenhado a cinzento." Público, Rui Pina Coelho, 19/12/2007