Monte Brasil (Angra do Heroísmo). Voltada para a baía, a casa é um regalo para os olhos. Menos para D. Afonso VI, exilado e espoliado da esposa e do reino. Partilha os dias e as noites com a solidão e com o seu pagem. Coxo, doente, envelhecido, D. Afonso é a máscara de todas as desolações. E, no entanto, tem apenas 33 anos. Vive sobre o arame da loucura e do pânico. Não distingue a luz da sombra ou mesmo da escuridão. Hesita entre ser criança e adulto; entre ser virtuoso e perverso, entre estar louco ou lúcido. O pajem é o seu espelho mais próximo. E também o seu bordão. A ele se arrima sempre que chega ao cume da loucura. É o que lhe resta de afecto e de capacidade para conviver ou exorcizar os seus fantasmas. Por isso, chega a perder-se a fronteira que separa a lucidez de um da loucura do outro.
Ficha Artística e Técnica Texto: Álamo Oliveira Dramaturgia e Encenação: Paulo Moreira Cenografia e Execução: Tó Quintas Concepção Plástica: Luis Vicente Música: Henry Purcell Intérpretes: João Jonas e Luis Vicente Vozes Off: Glória Fernandes, Jorge Soares, Luis de A. Miranda, Luis Vicente, Mário Spencer e Paulo Moreira Figurinos e Execução: Esmeralda Bisnoca Desenho de Luz: Noé Amorim Direcção Técnica: Noé Amorim Direcção de Produção: Luis Vicente
Da Imprensa:
"Mais uma vez a ACTA está de parabéns. Primeiro, por trazer a público mais um dramaturgo português, o que é manifestamente um trabalho de divulgação cultural e de apoio à criação artística nacional numa área tão carenciada de recursos humanos; segundo, porque a qualidade estética, plástica e técnica dos seus espectáculos, a manifesta inteligência colocada em cada trabalho, está bem acima da média, o que contribui para elevar a fasquia cultural do público - isso é educar e formar; terceiro, por continuar a ser a companhia de referência do Algarve, tendo o inegável mérito de se afirmar como a vanguarda cultural de uma região pobre e esquecida, a que faltam políticas culturais consistentes que valorizem a qualidade de vida dos seus habitantes - esse é um trabalho cívico e de cidadania que revela bem a consciência do que é bem servir o colectivo, o que é impagável. Por tudo, o meu obrigado." Reinaldo Barros, Postal do Algarve, 18/12/2003
"No fim da semana, pudemos assistir ao magnífico trabalho de actor dos dois elementos da ACTA participantes na produção "Solidão da Casa do Regalo", texto de Álamo Oliveira e encenado por Paulo Moreira. Para além do registo simultaneamente enlouquecido e lúcido de Afonso VI, interpretado por Luis Vicente, surpreendeu-nos mais o registo contido do pajem que o acompanha, interpretado por João Rocha.
[...] E é na ilustração dessa decrepitude, dessa degeneração da figura humana que, tanto a cenografia de Tó Quintas, como os figurinos de Esmeralda Bisnoca, têm o toque da genialidade. No meio de todo este cenário decadente ergue-se o jovem actor João Rocha, cuja contenção emociona e cujos múltiplos papeis em que tem de se desdobrar para servir o Rei dão-nos conta do Castigo de Sísifo.
[...] É de salientar também o trabalho de Paulo Moreira que fez uma encenação brilhante porque contida, de um texto sufocante e intenso, como os pesadelos das noites da Casa do Regalo." Ana Oliveira, Jornal do Algarve, 20/11/2003
"O espectáculo conta com as excelentes interpretações de Luis Vicente (como Afonso VI) e João Rocha (como Pajem). O primeiro apresenta-nos um excelente trabalho de actor ao interpretar uma personagem rica em contrastes físicos e psicológicos. Divertiu, chocou, emocionou, sem nunca cansar, tendo em conta que a personagem em questão é relativamente constante. Uma grande interpretação. Por seu lado, o jovem actor João Rocha [...] presenteou-nos com uma magnífica interpretação de um jovem pajem de dezasseis anos, cheio de conflitos provenientes de uma juventude precocemente castrada. É nesta personagem que reside o conflito dramático da peça.
[...] Apetece subir ao palco e dar colo àquela criança tão desamparada... E tão forte." Patrícia Amaral, Postal do Algarve, 22/01/2004
"Bom mesmo, foi verificar que Luis Vicente consegue manter-se em forma, expressando-se em movimentos adequadamente frenéticos, num papel tão distante dos que habitualmente gosta de fazer, oferecendo-nos ainda uma interpretação vigorosa, plena de expressividade, numa caricatura excelente [...]" E.G., Jornal do Algarve, 15/04/2004